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Rodrigo Azanza: o artista que dá uma segunda vida a pranchas quebradas

Rodrigo Azanza: o artista que dá uma segunda vida a pranchas quebradas

Rodrigo Azanza

Existe um tipo particular de artista que não precisa das paredes de uma galeria para criar obras importantes. Rodrigo Azanza é um deles. Radicado em Baja California Sur, ele pinta sobre pranchas de surfe que já chegaram ao fim de sua vida útil, pranchas já aposentadas pelo oceano, rachadas e encharcadas, e as transforma em algo com uma natureza completamente diferente. A premissa parece simples, mas a execução não é.

Rodrigo Azanza: Arte a partir de pranchas quebradas

Foto: Rodrigo Azanza

Reinventando pranchas no coração da cultura do surfe

Azanza trabalha como pintor, muralista, ilustrador e designer, e acrescentou “artivista” a essa lista com uma convicção que afasta o termo de um mero recurso de marketing. Sua prática parte de uma crença simples: a arte deve provocar algo, tanto em um espaço, quanto nas pessoas que o ocupam e no ecossistema ao seu redor. Na Baja California Sur, um dos estados de maior riqueza ecológica do México, essa não é uma ideia abstrata. É uma realidade cotidiana.

As pranchas de surfe surgiram dessa proximidade e de uma lógica natural. A Baja é território do surfe, e pranchas são descartadas com frequência: danificadas demais para voltar ao mar, mas presentes demais para serem ignoradas. Azanza intervém em cada uma individualmente, pintando diretamente sobre sua superfície e incorporando a forma e a história da própria prancha como parte do processo criativo.

Nenhuma obra é igual à outra porque nenhuma prancha é igual à outra. O próprio processo não permite repetição, mesmo que ele quisesse.

Foto: Rodrigo Azanza

Vida marinha traduzida em criações gráficas

O que ganha forma sobre essas pranchas tem como principal inspiração a arte popular mexicana: vibrante, simbólica e enraizada em uma tradição visual profundamente ligada às culturas indígena e mestiça. A flora e a fauna da península da Baja aparecem com riqueza de detalhes, retratando espécies que Azanza observa com atenção desde a infância. Quando a obra pede, ele transita entre o surrealismo e o realismo sem fazer alarde dessa mudança. O resultado é uma linguagem visual que parece ter sido acumulada, e não simplesmente construída; desenvolvida ao longo dos anos, em vez de concebida como um conceito.

A dimensão ambiental de seu trabalho não é meramente decorativa. A Baja California Sur está ao lado de um dos ambientes marinhos de maior biodiversidade do planeta, e Azanza acompanhou, ao longo do tempo, a crescente pressão sobre esse ecossistema. Resgatar objetos descartados e se recusar a deixá-los virar resíduos parte da mesma lógica de pintar uma garça, uma baleia ou um cacto do deserto: a convicção de que tudo isso merece nossa atenção. A obra transmite essa mensagem sem precisar dizê-la explicitamente.

Foto: Rodrigo Azanza

Transformando espaços por meio da arte e da cultura

Os murais operam em outra escala, mas seguem os mesmos princípios. Azanza trabalha em espaços públicos e privados por toda a região, sempre com o objetivo de transformar, e não apenas decorar. E existe uma diferença objetiva entre as duas coisas. A decoração se sobrepõe a um espaço; a transformação muda a experiência de estar dentro dele. Para isso, é preciso saber onde se está, compreender uma comunidade e entender o que uma parede realmente pede antes mesmo de tocá-la.

Há uma confiança singular em trabalhos que nascem de um lugar específico. Grande parte da arte contemporânea transita facilmente entre diferentes contextos justamente porque não está vinculada a nenhum deles, e essa mobilidade, às vezes, é confundida com profundidade. O trabalho de Azanza não circula dessa forma. Ele está enraizado na Baja California Sur, no México, em seu litoral, em seu deserto e em uma qualidade de luz muito própria.

É justamente essa especificidade que faz com que sua obra se conecte até mesmo com pessoas que nunca chegaram nem perto dali. Quando bem trabalhado, o autêntico é capaz de ir além do que o genérico jamais conseguiria.

Foto: Rodrigo Azanza

Rodrigo Azanza, um artista para ficar de olho

As pranchas de surfe são um ótimo ponto de partida para quem está conhecendo o trabalho de Azanza pela primeira vez. Elas carregam duas histórias ao mesmo tempo: a história física da própria prancha, criada para a água e desgastada por ela, e aquela que Azanza acrescenta por meio da pintura. Ao acompanhar as pinceladas inspiradas na arte popular percorrendo uma quilha ou as bordas da prancha, é possível perceber as duas. O objeto preserva seu passado. A pintura redireciona seu futuro.

O que conecta sua produção, entre murais, pranchas, ilustração e design, é um conjunto coerente de princípios, e não um estilo visual específico. A arte popular é a base, mas o surrealismo e o realismo são ferramentas às quais ele recorre sem hesitação quando a obra assim exige. Essa diversidade não transmite inquietação. Pelo contrário: revela alguém que sabe exatamente o que está fazendo e quer descobrir até onde pode levar seu trabalho.

Sua obra continua ganhando novas dimensões. Mais recentemente, Azanza atuou como artista residente no Las Ventanas al Paraíso, onde criou um mural original no interior da adega La Cava. Para isso, utilizou pigmentos naturais extraídos diretamente do deserto da Baja e técnicas ancestrais de afresco. Sem atalhos.

Um artista para ficar de olho, e cuja obra vale ter na parede. O oceano deu vida a essas pranchas. Azanza lhes dá um propósito.

 

Acomapnhe Rodrigo em rodrigoazanza.com ou @rodrigoazanza no Instagram.

Foto na capa: Rodrigo Azanza

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