Ex-advogada do centro financeiro de Londres, Francesca Busca trocou o direito pelos mosaicos e hoje cria obras fantásticas a partir de materiais descartados — folhas de alumínio usadas em salões de beleza, tampinhas de garrafa, redes de frutas e equipamentos de pesca abandonados —, transformando tudo no que chama de trashure: o lixo transfomado em tesouro. A ideia poderia soar como mero artifício. Nas mãos dela, passa longe disso.
Francesca Busca encontra arte no descarte

Busca se formou na London School of Mosaic, em 2019, com distinção. Essa formação se revela em tudo o que cria, a começar pela própria lógica do mosaico: pequenas peças, cuidadosamente posicionadas, que se unem para formar uma única imagem. É com inesperada afinidade que aquilo que julgamos como lixo se apresenta, aos olhos de Francesca, como matéria-prima para grandes obras.
Mil lacres de latinha, um ano inteiro de cápsulas de café, centenas de folhas de alumínio recolhidas do chão de um salão de beleza. É assim que Francesca Busca encontra arte no descarte. Cada fragmento se transforma em uma tessela, posicionada com o mesmo cuidado que um mosaicista tradicional dedicaria a mateiais nobres, como mármore ou vidro.

Ela chama esse processo de ArtWORKtivism: arte, trabalho e ativismo reunidos em uma só prática. E o nome diz muito sobre o que está por trás de suas obras. Francesca Busca trata o descarte como matéria-prima por excelência, não como substituto de algo mais nobre, e cada obra carrega consigo o peso ético e logístico de todo o tempo necessário para reunir seus materiais. Algumas levam anos. Nada é apressado apenas para provar um ponto.

Arte em séries
Francesca raramente cria uma única peça e parte para a próxima. Seu trabalho se desenvolve em séries extensas, cada uma construída a partir de um tipo específico de resíduo e de uma ideia própria. Em Maremnants, equipamentos de pesca abandonados e recuperados das águas da Escócia se transformam em paisagens marinhas e ricas texturas que remetem à costa. A série nasce de seu trabalho com iniciativas de conservação dos oceanos dedicadas a retirar do mar cordas e outros materiais de pesca descartados.
Em The Characters, Francesca reinventa o retrato usando exclusivamente tecidos e papéis reaproveitados. São figuras abstratas construídas em círculos, e não em linhas retas, cada uma delas como uma pequena defesa da fluidez em detrimento da conformidade.
Já Metafauna e Paraflornalia transformam cápsulas de café, garrafas de iogurte e redes de frutas em recifes de coral e pradarias marinhas — obras bonitas o bastante para, por um instante, nos fazer esquecer do que realmente são feitas.

E isso é intencional. A artista quer que a beleza seja capaz de convencer por si só. Suas obras sobre veganismo e bem-estar animal, assim como aquelas feitas a partir de botes de resgate descartados, que remetem ao deslocamento e ao refúgio, não colocam dados e estatísticas em primeiro plano. Começam pela cor, pelos padrões, pelo trabalho artesanal, e deixam que a origem dos materiais seja percebida apenas em uma segunda camada de apreciação da obra.

Para além da obra
A prática de Francesca vai muito além do ateliê. Ela fundou o ArtforTrash, um formato de encomenda em que o próprio lixo do cliente se transforma em matéria-prima para obras feitas sob medida, e o Payment in Kind(ness), que permite substituir o pagamento por atitudes sustentáveis. Também está por trás do GREENy bastARTs, coletivo internacional de artistas dedicados a causas ambientais. Paralelamente à produção artística, Francesca dá palestras, já expôs em mais de cem espaços ao redor do mundo e passou períodos colaborando com institutos de pesquisa marinha — mais recentemente, em projetos envolvendo resíduos recuperados da lagoa de Veneza e da costa escocesa.
Nada disso ocupa um lugar secundário em seu trabalho. As encomendas, o coletivo, o ensino: são diferentes formas de defender a mesma ideia: aquilo que descartamos ainda tem valor e que, nas mãos certas, é possível prová-lo.

Um tesouro de outra natureza
O que faz o trabalho de Busca realmente funcionar não é apenas o conceito, mas a disciplina que existe por trás dele. Qualquer pessoa pode colar tampinhas sobre uma superfície e chamar o resultado de crítica social. Construir com mil delas uma paisagem marinha coerente, tessela por tessela, com o olhar de uma mosaicista para a relação entre cada fragmento e o seguinte, exige um domínio técnico de outra ordem.
Seus materiais nunca desaparecem por completo dentro da imagem, e esse é justamente o ponto. Ainda é possível reconhecer um lacre de latinha como um lacre de latinha. A artista não quer que você esqueça aquilo que está diante dos seus olhos. Quer que aprenda a enxergá-lo de outra maneira.
Assim, quando você finalmente perceber as cápsulas de café, provavelmente já foi conquistado pela obra.
Acompanhe o trabalho de Francesca em francescabusca.art e no Instagram, @art_for_trash.